Selma Barbosa da Silva
Valparaiso
BRASIL
Literatura em Fases
“Caminhos que me fizeram apreciar a literatura e tornar-me leitor”
O interesse por papéis e leitura surgiu prematuramente em mim, por volta dos quatro anos de idade. Conta minha mãe que minhas duas irmãs sentavam-se à mesa para fazerem as lições de casa e eu ficava em volta com os olhinhos brilhantes de infância, curiosa para compreender e participar daquilo que tanto lhes prendiam a atenção, logo era providenciado à “pequena”, lápis e papel para caprichosas garatujas. Lembro que o primeiro clássico que ganhei foi “O Patinho Feio” não demorou muito para que eu fizesse sua leitura, tamanho era o desejo de realizá-la.
Esse comportamento rendeu-me, além de elogios, um rápido letramento e ao ingressar-me no Pré-escolar não passei por dificuldades e concluí com êxito a primeira fase, na qual o foco de leitura eram os animados Gibis da “Turma da Mônica” de Maurício de Souza e da personagem “Recruta Zero”, ficava horas, quando não tinha tarefa, lendo e me divertindo com os passatempos. Aos 9 anos já negociava com o jornaleiro, a troca de números antigos pelos mais recentes.
Na Pré-adolescência continuei bisbilhotando os papéis e guardados das irmãs e por acaso, encontrei um livro cujo título era “Pollyanna” e pela resenha da capa observei que era próprio para a idade, então comecei a ler. Concluí a leitura antes da minha irmã. Foi uma leitura maravilhosa! Mais tarde consegui ler também “Pollyanna Moça” e por muito tempo joguei o “jogo do contente”, ensinado no livro, que nada mais era do que ver, em toda e qualquer circunstância, o lado bom das coisas. Isso foi muito importante numa infância com tão poucos recursos lúdicos em casa. “O Estudante I e II” de Adelaide Carraro, “A droga da obediência” de Pedro Bandeira e “Um cadáver ouve rádio” de Marcos Rey também foram leituras de alto valor nessa fase de transição.
É cabível aqui, que eu peça licença ao estimado e admiradíssimo Machado de Assis, e a tantos outros que marcaram época, embora muitos sejam atemporais; aos modernistas de 1922; aos contemporâneos e a todos da Academia Brasileira de Letras, porque o livro que me conquistou indubitavelmente, responsável pelo gostar de ler em minha história de vida, não foi de um escritor brasileiro. Nascido no início do século passado na França foi “Antoine de Saint Exupéry”, aviador e escritor do magnífico “O Pequeno Príncipe”, cuja narrativa é de uma sensibilidade singular, uma leitura “filosófica” simples, compreensível, carregada de magia e de bons sentimentos, que levou essa leitora, em fase inicial, a viajar pelo mundo da imaginação. “E viajei com os pássaros selvagens, em diferentes planetas, cultivei com o maior de todos os amores uma flor, da qual só existe uma em milhões e milhões de estrelas e até hoje me pergunto se o carneiro devorou ou não a indefesa florzinha, sim, porque isso muda o significado da existência das estrelas: lágrimas ou risos?...”. Foi ele, lido ainda na infância querida, que me fez sentir e vivenciar a beleza e a sensibilidade da literatura.
Vem deste tempo minha apreciação pelo pôr-do-sol, minha identidade cósmica. É a hora do dia que mais gosto e contemplo sempre que possível, há sempre uma sensação de dever cumprido, consciência tranqüila e paz com o universo, ainda que externamente, nos demais espaços do mundo, nem tudo esteja tão harmonioso assim. Igualmente, desde então, O Pequeno Príncipe tornou-se um dos meus livros de cabeceira, li e reli que já perdi as contas e a cada releitura, um novo aprendizado para a vida. Numa das últimas retirei este: “... é mais difícil julgar a si mesmo que julgar aos outros. Se consegues julgar-te bem, és um verdadeiro sábio...”.
Num outro momento da vida, o iniciar da juventude quando já cursava o primeiro ano do Magistério, não apreciava com muito entusiasmo as aulas de Língua Portuguesa. No segundo ano, a professora que ministrava as aulas de literatura chamava-se Neise, falava baixinho, não se alterava. Certa vez a aula era a respeito do escritor do Realismo “Machado de Assis” e ela nos apresentou este autor com palavras apaixonadas, que prendiam a atenção da classe. Assim disse: “... Ele sempre fala da alma humana e a alma humana é a mesma em todos os tempos...” não preciso dizer que era o seu autor preferido. Para a avaliação, solicitou-nos a leitura de “Dom Casmurro” e é claro que todo mundo fez aquela cara de que seria chatíssimo fazer isso por obrigação, ela, demonstrando sua experiência, logo nos orientou a julgar um livro somente após a sua leitura e assim fizemos.
A partir de então, o meu eu – leitor direciona-se a um novo prisma, ao descobrir a delícia que é a literatura nacional. E estudar um romance de outra época não influenciou negativamente neste “despertar”, pelo contrário, meu romantismo natural facilitou o interesse pela história de amor dos protagonistas – Capitu e Bentinho - e pelo drama que acompanha Bentinho na fase adulta até o desfecho da narrativa. Na avaliação fui muito bem. Não demorou muito e li-o mais uma vez para tirar as dúvidas que pairam ao longo do romance, não satisfeita refiz a leitura outras várias vezes, e ainda leio pelo simples prazer que o romance proporciona-me.
Atualmente leio de tudo: pessoas, momentos, o panorama político, as amizades e a falta delas, minha religiosidade, meus próprios tempos, a família atual e a possibilidade de outra, os grandes filósofos, e bons livros, como: ”Mas não se matam cavalos?” de Horace McCoy, a fim de analisar a narrativa, “Os sete níveis da intimidade”, que fala da arte de amar, do escritor Mattew Kelly e uma seleção dos melhores poemas de Pablo Neruda.
A leitura é assim, um “abrir de olhos” diferente. O mestre é “um buscar” que independe de escola, é um estar-se preso por vontade, numa ligação transcendental com os autores, é tomar posse da imaginação de outrem. Olhar a si mesmo, ao seu próximo e também o distante, por um ângulo universal, é apenas começar e tudo flui naturalmente.
E você? Como se fez leitor?